O Engano da Experiência

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Quando eu era criança, um dos jogos que nos seduziram foi o dominó. A interação social era completa e ríamos juntos construindo nossas amizades de esquemas com os dominós. Se um dominó era derrubado, mesmo que acidentalmente, todos caíam e a gente ‘perdia’ todo trabalho já feito, mas ganhava experiência e diversão. Se tudo caísse, como era uma brincadeira, a gente começava do zero. Seria bom se a vida fosse assim também, principalmente a vida cristã. Oremos sempre para que Deus seja misericordioso e nos dê tempo e arrependimento segundo a vontade Dele.

Será que o que precisamos é levar um susto, ficando à beira da morte física ou espiritual para ver que a vida eterna com Cristo é bem melhor? Alguém de nós precisa sofrer do coração para saber que é ruim? Da mesma forma não precisamos ter experiências pessoais com as conseqüências ruins para saber que basta o exemplo. Olhemos para o exemplo de Caim, Esaú, Golias, Judas e outros maus exemplos para que seja uma lição já. Com Esaú aprendemos que o arrependimento pode ser tardio:

“E tomem cuidado também para que ninguém se torne imoral ou perca o respeito pelas coisas sagradas, como Esaú, que, por causa de um prato de comida, vendeu os seus direitos de filho mais velho. Como vocês sabem, depois ele quis receber a bênção do seu pai. Mas foi rejeitado porque não encontrou um modo de mudar o que havia feito, embora procurasse fazer isso até mesmo com lágrimas“ (Hb 12:16, 17).

Com Judas aprendemos que o pecado nos trará remorso e com o risco de que o remorso seja tão grande e não dê lugar ao arrependimento:

“Quando Judas, o traidor, viu que Jesus havia sido condenado, sentiu remorso e foi devolver as trinta moedas de prata aos chefes dos sacerdotes e aos líderes judeus, dizendo: — Eu pequei, entregando à morte um homem inocente. Eles responderam: — O que é que nós temos com isso? O problema é seu. Então Judas jogou o dinheiro para dentro do Templo e saiu. Depois foi e se enforcou“ (Mt 27:3-5). Irmãos, que estes exemplos sejam suficientes, não precisamos de experiência pessoal.

Outra justificativa, às vezes inconsciente, para parar de crescer é: “Já estou na igreja há mais de 10, 20, anos…“. Quando pensamos desta forma, queremos dizer que não podemos aprender mais nada, ninguém tem moral para me chamar a atenção, já sei de muita coisa, meu lugar já está garantido, etc. Precisamos lembrar que na verdade só temos hoje. Tudo o que fizemos ontem é um castelo de areia. O amanhã não está garantido.

Por que lutamos contra o crescimento? Simples, porque crescer dói, crescer nos tira da zona de conforto, crescer nos faz perder o que temos para que possamos ser dignos de sermos confiados a ter mais ainda. A questão também que nos incomoda por sermos humanos é que vamos possuir algo que não pode ser segurado e isto traz insegurança, por outro lado, fortalece a fé…

O autor de Hebreu lembrou aos seus leitores: “Ora, na vossa luta contra o pecado, ainda não tendes resistido até ao sangue” (Hb 12:4). Esta passagem deve nos lembrar que o fim da luta contra o pecado é a morte. Os meios, uma vida toda dedicada, não nos justifica para atingirmos o objetivo maior, a única coisa que nos justifica é o sangue de Jesus derramado na cruz. A experiência pessoal não nos justifica. Mesmo sendo muito experientes, só há uma coisa que nos justifica a continuar como no dia do batismo: atestado de óbito. E se somos realmente bem experientes, já devemos conhecer o que o autor de Hebreus falou sobre o tempo decorrido:

“A esse respeito temos muitas coisas que dizer e difíceis de explicar, porquanto vos tendes tornado tardios em ouvir. Pois, com efeito, quando devíeis ser mestres, atendendo ao tempo decorrido, tendes, novamente, necessidade de alguém que vos ensine, de novo, quais são os princípios elementares dos oráculos de Deus; assim, vos tornastes como necessitados de leite e não de alimento sólido. Ora, todo aquele que se alimenta de leite é inexperiente na palavra da justiça, porque é criança. Mas o alimento sólido é para os adultos, para aqueles que, pela prática, têm as suas faculdades exercitadas para discernir não somente o bem, mas também o mal” (Hb 5:11-14).

Conversando com alguns irmãos notamos que os irmãos idosos que deveriam estar nos dando exemplos deixaram de frequentar os maiores e melhores eventos para aproveitar esta oportunidade. Quando teremos exemplos a seguir se os homens que deveriam ser referência não estão mais lá? Nota-se que várias congregações poderiam ter presbíteros e as que tem estão com falta de um presbitério. Que nossa experiência seja usada por Deus para ser exemplo de serviço. Que a experiência nos sirva para sermos cada vez mais maduros na fé, no evangelismo e na luta contra o pecado.

Não nos enganemos nos apoiando nesta vida e às coisas que a ela pertencem. Que nossa bandeira seja o Senhor. Que os irmãos sejam o apoio ao nosso braço levantado na batalha. Que a fraqueza física não seja sinônimo de fraqueza espiritual. Que o Senhor seja a nossa rocha e salvação.