Esse título me chamou a atenção, nesta última semana. Diz respeito a um artigo do Rev. Ian Paul. A teoria foi publicada num blogue e depois noticiada pelo The Guardian:

” Desculpem estragar os vossos preparativos de Natal ainda antes de se apagarem as luzes natalinas. Mas, Jesus não nasceu num estábulo e, curiosamente, o Novo Testamento nem sequer o sugere”, escreve.

É relevante dizer que essa teoria não é nova e chegou a ser defendida ainda no século XVI. A primeira vez, que se tem notícias, dessa interpretação, foi feita em 1584, por um estudioso espanhol de nome, Francisco Sánchez de las Brozas, que defendeu exatamente a mesma teoria e foi perseguido pela Inquisição.

O Sr. Ian Paul defende a teoria de que há um erro de tradução na Bíblia. A sua publicação no blogue é uma reposição do que já tinha escrito em 2013.

Então, de onde vem a ideia?

Basicamente o autor expõe três aspectos: elaboração tradicional; questões de gramática e significado; e ignorância da cultura israelita do primeiro século.

A primeira questão diz respeito a elaboração tradicional, e surgiu da leitura da história através de uma compreensão “messiânica de Isaías 1.3:

“O boi reconhece o seu dono, e o jumento conhece a manjedoura do seu proprietário, mas Israel nada sabe, o meu povo nada compreende”. <NVI>

A menção de uma “manjedoura” na história da natividade de Lucas, sugerindo animais, levou os ilustradores medievais a descrever o boi e o jumento reconhecendo o bebê Jesus, então o ambiente natural era um estábulo – afinal, não é onde os animais são mantidos? Não necessariamente! – responde o autor.

A segunda questão, e talvez o cerne da reflexão, é a questão gramatical. O significado da palavra grega kataluma (kataluma) em Lucas 2.7. Versões mais antigas traduzem como ‘pousada’:

“e ela deu à luz o seu primogênito. Envolveu-o em panos e o colocou numa manjedoura, porque não havia lugar para eles na hospedaria [kataluma]. “<NVI>

alguma razão para se fazer isso; a palavra é usada no Antigo Testamento grego (a Septuaginta, LXX) para traduzir um termo para um lugar público de hospitalidade (por exemplo, em Êx 4.24 e 1 Samuel 9.22). E a etimologia da palavra é bastante geral. Vem de kataluo que significa desatar ou desamarrar; isto é, desmontar os cavalos e desamarrar a mochila. Mas existe evidência, no uso desse termo, em outro lugar. É o termo para a sala ‘superior’ privada onde Jesus e os discípulos comeram a ‘última ceia’ (Marcos 14.14 e Lucas 22.11; Mateus não menciona a sala). Esta é claramente uma sala de recepção em uma casa particular. E quando Lucas menciona uma ‘hospedaria’, na parábola do homem que caiu entre os ladrões (Lucas 10.34), ele usa o termo mais geral pandocheion, significando um lugar em que todos (viajantes) são recebidos, um caravanserai.

A diferença fica clara nas definições abaixo:

Kataluma (Gr.) – “o quarto sobressalente ou superior em uma casa particular ou em uma vila […] onde os viajantes recebiam hospitalidade e onde nenhum pagamento era esperado” (ISBE 2004). Um alojamento privado que é distinto daquele em uma hospedaria pública, isto é caravanserai, ou khan.

Pandocheion , pandokeion , pandokian (Gr.) – (i) Em 5ºC. d.C. Grécia uma pousada usada para o abrigo de estranhos (pandokian = ‘todos recebendo’). O pandokeion tinha um refeitório e um dormitório comum, sem salas separadas, destinadas a viajantes individuais (Firebaugh, 1928).

A terceira questão, segundo Ian Paul, diz respeito à nossa compreensão do contexto histórico e social. Em primeiro lugar, seria impensável que José, retornando ao seu lugar de origem ancestral, não fosse recebido pelos membros da família, mesmo que não fossem parentes próximos. Kenneth Bailey, um autor famoso por seus estudos sobre a cultura israelita do primeiro século, comenta:

“Mesmo se ele nunca esteve lá antes, ele podia aparecer de repente na casa de um primo distante, recitar sua genealogia, e estaria entre amigos. José tinha apenas que dizer: “Eu sou José, filho de Jacó, filho de Matã, filho de Eleazar, filho de Eliud”, e a resposta imediata poderia ter sido: “Bem vindo. O que podemos fazer por você? ”Se José tivesse algum membro da família (mesmo que distante) residindo na aldeia, ele teria a honra de procurá-los. Além disso, se ele não tivesse família ou amigos na aldeia, como membro da famosa casa de Davi, em nome de Davi, ele ainda seria recebido em quase qualquer lar da aldeia.”

Além disso, o projeto real dos lares israelitas (até os dias de hoje) dá sentido a toda a história. Como Bailey explora em seu livro Jesus Through Middle-Eastern Eyes, a maioria das famílias morava em uma casa de um só cômodo, com um compartimento inferior, para os animais serem trazidos à noite, e um quarto na parte de trás ou na cobertura, para os visitantes. A área habitada normalmente pela família teria cavidades no chão, cheias de feno, na área de estar, onde os animais se alimentariam.

Este tipo de sala de estar com animais em casa à noite é evidente em alguns lugares nos evangelhos. Em Mateus 5.15, Jesus comenta:

“E, também, ninguém acende uma candeia e a coloca debaixo de uma vasilha. Pelo contrário, coloca-a no lugar apropriado, e assim ilumina a todos os que estão na casa. <NVI>

“ilumina a todos que estão na casa” – Isso não faz sentido a menos que todos vivam no mesmo quarto!

E no relato de Lucas de Jesus curando uma mulher no sábado (Lucas 13.15), Jesus comenta:

Hipócrita, cada um de vós não desprende da manjedoura (mesma palavra de Lucas 2.7), no sábado, o seu boi ou o seu jumento, para levá-lo a leva a beber? (ARA)

Curiosamente, nenhum dos críticos de Jesus responde: “Não, eu não toco animais no sábado” porque todos eles teriam que levar seus animais para fora da casa. Na verdade, uma variante manuscrita tardia diz “conduza-a para fora da casa e dê-lhe água”.

O que, então, significa para o temo kataluma dizer que “não havia lugar para eles”? Isso significa que muitos, como José e Maria, viajaram para Belém, e o quarto da família já estava cheio, provavelmente com outros parentes que chegaram mais cedo. Então José e Maria devem ter ficado com a própria família, na sala principal da casa, e lá Maria deu à luz.

O lugar mais natural para se colocar o bebê seria nas cavidades cheias de feno na extremidade inferior da casa onde os animais são alimentavam. A ideia de que eles estavam em um estábulo, longe dos outros, sozinhos e marginalizados, é gramaticalmente e culturalmente implausível. De fato, é difícil ficar sozinho em tais contextos. Bailey divertidamente cita um dos primeiros pesquisadores:

“Qualquer um que tenha se alojado com camponeses israelitas sabe que, apesar de sua hospitalidade, a falta de privacidade é indescritivelmente dolorosa. Não se pode ter um quarto para si mesmo e nunca se está sozinho de dia ou de noite. Eu mesmo, muitas vezes, fugi para o campo aberto simplesmente para poder pensar.”

Ian Paul ainda escreve:

“Na história do Natal, Jesus não está triste e solitário, a alguma distância do estábulo, precisando da nossa simpatia. Ele está no meio da família e todas as relações de visita, bem no meio dela e exigindo nossa atenção.  Isso deve mudar fundamentalmente a nossa abordagem para encenar e pregar sobre a natividade.”

No seu livro, Bailey cita William Thomson, um missionário presbiteriano no Líbano, na Síria e na Palestina, que escreveu em 1857:

“Tenho a impressão de que o nascimento ocorreu em uma casa comum de algum camponês comum, e que o bebê foi colocado em uma das manjedouras, como as que ainda são encontradas nas habitações dos agricultores da região.”

K. E. Bailey observa que Alfred Plummer, em seu comentário do ICC, publicado originalmente no final do século XIX, concordou com isso. Então, por que a interpretação tradicional e errada persistiu por tanto tempo?

Ian Paul acredita em duas causas principais. Em primeiro lugar, acha muito difícil ler a história em seus próprios termos culturais e constantemente impor a nossa própria suposição sobre a vida. Onde você guarda animais? Bem, se você mora no campo, será longe da família, é claro! Então é aí que Jesus deve ter estado (seriam um pensamento atual). Em segundo lugar, é fácil subestimar quão poderosa é a tradição da leitura das Escrituras. Dick France explora esta questão ao lado de outros aspectos da pregação sobre as narrativas da infância em um capítulo do livro “Proclaim the Word of Life” . Ele relata sua própria experiência do efeito disso:

“advogar esse entendimento é tirar da mente não apenas muitos cânticos familiares (‘num estábulo humilde’; ‘um estábulo com uma porta aberta’), mas também um tema favorito dos pregadores do Natal: o ostracismo do Filho de Deus da sociedade humana, Jesus o refugiado. Isso é coisa subversiva. Quando comecei a advogar pela interpretação de Bailey, ela foi escolhida por um jornal de domingo e depois relatada em vários programas de rádio como um exemplo típico de destruição teológica, a par com o então notório desmascaramento da atualidade da ressurreição pelo bispo de Durham.”

Questionando se vale a pena desafiar as suposições das pessoas, Ian Paul responde afirmativamente que sim. Ele acredita que as pessoas precisam ouvir a história real das Escrituras, ao invés da tradição de uma brincadeira de criança. França continua:

“O problema com o estábulo é que ele distancia Jesus do resto de nós. Põe até mesmo seu nascimento em um cenário único, em alguns aspectos tão distante da vida como se tivesse nascido no palácio de César. Essa é a mensagem da encarnação: que Jesus é um de nós. Ele veio a ser o que somos, e se encaixa bem com a teologia de que seu nascimento de fato ocorreu em uma casa israelita normal, cheia de gente, calorosa e acolhedora, assim como muitos outros garotos judeus de sua época.”

O que você diz a respeito? Esse é um bom tema para uma conversa sobre o verdadeiro sentido do Natal – o nascimento de Jesus Cristo!

NOTAS ADICIONAIS

Ian Paul ainda chama a atenção para um artigo de Stephen Carlson, sobre esse tema. O artigo foi publicado no NTS em 2010, e está disponível gratuitamente aqui . Carlson expões mais três pontos:

1. Ele analisa amplamente o uso de  kataluma  e, em particular, observa que na Septuaginta (LXX, a tradução grega do Antigo Testamento do hebraico no século II aC), ele traduz uma ampla variedade de termos hebraicos para “lugares para ficar”. Assim, ele vai além de Bailey, concordando que não significa hospedaria, mas que se refere a qualquer lugar que tenha sido usado como alojamento.

2. Ele olha em detalhes para a frase, muitas vezes traduzida como, “não havia espaço para eles no kataluma ” e argumenta que a expressão grega ouch en autois topos não significa “não havia espaço  para  eles”, mas “eles não tinham espaço”. ‘ Em outras palavras, ele acha que o kataluma, não era grande o suficiente para Maria dar à luz a Jesus, assim ela se mudou para a sala principal para o nascimento, assistido por parentes.

3. Ele acredita que Belém não era o lar ancestral de José, mas sua verdadeira casa de família, por dois motivos. Em primeiro lugar, não temos registro de nenhum censo romano exigindo que as pessoas retornem ao lar ancestral . Em segundo lugar, ele argumenta que a frase em Lucas 2;39 ‘para uma cidade própria, Nazaré’ não implica que eles estavam voltando para sua cidade natal, mas que eles fizeram disso sua casa. Nós já sabemos que esta é a cidade natal de Maria, e seria comum a mulher viajar para a cidade natal do homem (Joseph’s Bethlehem) para completar as cerimônias de noivado. Depois que Jesus nasce, eles retornam juntos para se estabelecerem perto da família de Maria.

O  kataluma  era, portanto, com toda a probabilidade, a acomodação extra, possivelmente apenas um quarto individual, talvez construído no telhado da casa da família de José para o novo casal.