Quero deixar de ser Forte

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Não sei ao certo como se constituem pessoas fortes; algumas ficam assim por superarem doenças quando bebês, outras são endurecidas pelas adversidades na mais tenra idade; fome, escassez e abandono também impulsionam o ser humano tornando-o extremamente frágeis, ou extremamente fortes. Embora eu seja forte, não me enquadro em nenhuma situação adversa, já que, graças a Deus, tenho boa saúde e vivenciei uma infância saudável.

Posso ter me tornado forte por aprendizado. Sempre enxerguei minhas avós como rochas sertanejas que demonstravam vigor e pulso na educação dos filhos, abdicando da fragilidade feminina para lidar com ausência de aconchego e carinho por parte dos maridos (já que o ser “machão” era regra de conduta para os homens da época); o que dirá a avó que batalhou pelo sustento físico e emocional dela própria e dos filhos ao lado de um marido alcoolista? Essa “teima” em superar sempre me fez admirá-las e acredito que me motivaram a ser forte, mesmo que de maneira inconsciente… Eu nem imaginava o preço alto que se paga por ser assim.

Minhas avós estão com mais de 80 anos e são lúcidas e lindas, amo estar na presença delas, no aconchego de suas casas e amo as risadas que damos juntas. É verdade que ainda não diminuíram o padrão de auto exigência: a avó paterna é forte na saúde, no vigor e no comando – somente aos 84 anos, depois de ser acometida pela dita “Chikungunya” é que a ouvi reclamar de cansaço e falta de energia. Nunca antes disso! … A minha avó materna é forte no comando, na criatividade e na resolução de problemas. Hoje, apresenta saúde debilitada devido ao problema pulmonar, mas ela não descansa querendo resolver problemas de todos, é sedenta por aprender novas habilidades em trabalho manual e ainda não cansa de ter sempre razão.

Porém, vou compartilhar uma vivência que na época já me fez questionar o “benefício” em ser forte: no ano 2000, um tio paterno muito querido foi surpreendido por grave doença e, com poucos meses de tratamento, faleceu deixando esposa e três filhos adolescentes. Viajamos, meus pais e irmãos, ao sertão e já chegamos no momento do velório que acontecia na casa do meu tio. Ao chegar, encontramos a viúva e filhos sendo consolados. Mas, me chamou atenção ver que a minha vó havia feito chá e estava ali servindo a todos. Eu tinha 21 anos na época e cheguei a questionar se era benefício estar naquela posição de pé, ao invés de se permitir desabar em prantos e se deixar consolar no direito de mãe que lhe cabia. Se era medo de sentar e as pernas não obedecerem, qual o problema em desabar um momento? Por que as exigências da vida privaram a minha vó de saber espernear, deitar no colo de alguém, de chorar alto? Fiquei na cozinha com ela, tomamos chá e lágrimas singelas correram na sua face, mas ela não aprendeu a usufruir do seu direito de prantear.

Será que vale a pena ser forte assim?

Na ocasião da morte de Lázaro, o evangelho de João conta que Marta foi ao encontro de Jesus e o questionou pela demora, mas não há relato de pranto (João 11. 20,21). Já Maria ficou em casa enquanto era consolada por alguns (João 11.31,33). O que posso aprender com isso?

As pessoas frequentemente me adjetivam como “Forte”. Escuto muito: “Ah, mas você é forte!” no intuito de justificar que para mim as coisas são mais fáceis de superar… Hoje, falta pouco para que eu complete 40 anos e já não vejo benefício nisso. Pode parecer insanidade, ingratidão, mas a verdade é que cansei de estar no lugar da que sempre corre para matar a barata, da que carrega o peso, a que fica até o final do evento para limpar, da que é resistente sempre, da que não fica de cama quando adoece. Quero deixar de ser forte porque é cansativo ficar medindo a força para não machucar, medindo as palavras para não magoar, abaixando a voz para não ser mal interpretada, medindo os passos para não ir longe demais…

É bem verdade que passa despercebida a necessidade de consolar os fortes, raramente alguém cuida em “checar” amorosamente a vida devocional ou a jornada de fé da pessoa forte; geralmente os fortes não conseguem falar das suas dores, pois sempre acham que podem aguentar e os outros tem mais urgência em serem acolhidos. E não é por orgulho, não é por se acharem superiores, mas é a falta de aprendizado mesmo!

Por ser forte perco o sono tentando encontrar “soluções” para os problemas, quando desejo somente confiar no Senhor; por ser forte não descanso meu corpo o quanto deveria, exijo demais de mim e elevo o padrão de conduta de minhas filhas; por ser forte preciso lutar insistentemente para ter o coração submisso e perder minhas atitudes de indignação.

Certamente, estou chocando alguns com o meu desabafo, pois sei que a mulher forte é admirada e o mundo prega que precisa de pessoas que aguentem as pancadas. O feminismo vem como um trator passando por cima de nós e exigindo que sejamos proativas, eficientes nas triplas jornadas de trabalho e nas inúmeras funções que desempenhamos.

Mas, na contramão disso tudo, quero expressar o meu desejo saudável de aprender com as “Marias” a prantear, a deixar de servir por um instante e assentar aos pés de Jesus.

Quero também expressar meu apelo aos pais, irmãos, maridos, amigas, mães: atentem para as mulheres fortes, façam nelas cafuné, coloquem-nas no colo, ajudem a balançar seus filhos, dividam o peso, criem oportunidades para que elas chorem ou desabafem, lembrem-nas que elas podem errar, que não precisam resolver tudo, orem com elas e perguntem se elas estão assentando aos pés de Jesus.

O meu apelo às mulheres fortes: se deixem ser cuidadas, deem oportunidades para que outros lhes sirvam, sejam fracas de vez em quando, diminuam o padrão de exigência, sempre é tempo de aprender.

Quero deixar de ser forte, pois posso estar limitando o poder de Deus em minha vida.

Em 2 Coríntios 2.9, o apóstolo Paulo chega ao entendimento que o poder de Deus se aperfeiçoa na fraqueza. Me perdoem as mulheres que não abrem mão da sua força e vocês não são obrigadas a isso. Mas eu estou cansada e quero abrir mão da minha própria força, sim, pois ela me causa fadiga espiritual, emocional e física. Quero dar espaço para o poder de Deus, pois a força que vem do Senhor resultará em vigor, restauração e renovo!

Será que você não sabe? Nunca ouviu falar? O Senhor é o Deus eterno, o Criador de toda a terra. Ele não se cansa nem fica exausto, sua sabedoria é insondável. Ele fortalece ao cansado e dá grande vigor ao que está sem forças. Até os jovens se cansam e ficam exaustos, e os moços tropeçam e caem; mas aqueles que esperam no Senhor renovam as suas forças. Voam bem alto como águias; correm e não ficam exaustos, andam e não se cansam. (Isaías 40:28-31 NVI)